E o clientelismo…

Novembro 23, 2008

(Alexandre)

Estamos a caminho de Guaribas, em uma viagem de 12 horas de onibus de Salvador a Barreiras. Mas antes de vir, fomos jantar na casa do meu pai, onde tivemos uma breve momento familiar. Otimo para eu recarregar as baterias, mas coitado do Gustavo,fez com que ele tivesse ainda mais saudade de casa. Imprimimos ali uma reportagem das Rolling Stones sobre Guaribas, que acabamos de ler aqui no onibus. Estava claro que a principal intenção do jornalista foi mostrar o Lula como um traidor, já que ele prometeu ir lá e não foi, já que ele prometeu melhoras e os seus programas sociais não combatem o clientelismo e assistencialismo. A reportagem usa de um depoimento de um residente, e indicadores para pincelar uma realidade sofrida, necessitada e incapacitada de qualquer esperança de transformação. Foi um otimo exemplo do que não queremos fazer.
Mas daí surgiu um pensamento sobre o clientelismo: é verdade que quando falamos com as comunidades que estamos visitando muitos falam que só o governo pode ajudar, que eles só tem que esperar. Uma análise superficial iria logo chegar a conclusão que essas pessoas estão penduradas na máquina do governo. Quando perguntamos o que eles fazem ou podem fazer para mudar, muitos dizem que não sabem ou não podem por viverem em extrema pobreza. Mas depois de uma reflexão vemos que a história não é bem assim: eles pagam para trazer o carro pipa ao seus povoados, eles se juntam para roçar, dinheiro é arrecadado para festejos que acontecem anualmente. A população mais pobre desse país não está parada de braços cruzados esperando melhoras que cheguem do governo ou do céu. Mesmo aqueles que recebem o bolsa familia (que não são todos) fazem acontecer. Só que o que aparenta é que eles não vêem isto como uma potencialidade, mas como uma maneira de se virar. Por isso que uma pesquisa ou reportagem superficial em busca apenas da pobreza vai perpetuar o assistencialimso ja que o pobre é mostrado como passivo, o marginalizado ou como um perdido.
Só que o que estamos aprendendo é que essa população que vive o clientelismo, tem a noção que ele esta operando, e mais que tudo, se ela se utiliza dele, é para conseguir beneficios. O pobre não é só vitima, ele nessa situação tem poder de barganha. Uma entrevista com a professora do Sitio das Baixas deixou isso bem claro. Como o sitio onde ela vive faz parte de dois municipios, a professora acha que isso não é apenas um problema, mas também uma solução, já que em época de eleições eles podem conseguir ajuda dos dois lados.
Esse pensamento aqui nesse onibus a caminho de Barreiras não pretende perceber o clientelismo de nenhuma maneira que não seja negativa no processo de desenvolvimento dessas localidades. Mas não podemos cair no simplismo de achar que o pobre se entrega as condições aversas. Ele é lutador e trabalhor, ele aparenta 10 anos mais velho que a sua real idade pelo esforço da vida, são “seres de luz”, luz de mudança e transformação, e o que precisam é uma ajuda nesse processo que eles já começaram.

Menino busca água em Cercadinho, Manari, Pernambuco.

Menino busca água em Cercadinho, Manari, Pernambuco.

Dona Lindu vai para casa... Sitio Baixas, Manari, Pernambuco.

Dona Lindu vai para casa... Sítio Baixas, Manari, Pernambuco.

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2 Respostas to “E o clientelismo…”

  1. María Says:

    Istes elementos do clientelismo, na minha terra, chámase “aproveitar as fisuras do sistema”…
    Beijo grande!

  2. Marciano Rodrigues de Oliveira Says:

    MANARI – RELATO DE UM FILHO SEU

    As vezes faço uma avaliação sobre a situação de minha terra. “Manari pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país”. E me faço a seguinte pergunta: qual é o motivo de tal? Então começo a desenvolver respostas na mente, e chego a seguinte conclusão: A população de Manari é a principal responsável por este índice.
    Fico triste ao ver a situação das principais ações de desenvolvimento que deveria acontecer no município através do poder público:

    Educação: Mundialmente conhecida como a principal fonte de desenvolvimento, em Manari ela sempre esteve numa situação precária. Apartir do ano 2004, ela vem se desenvolvendo através das ações do governo federal, que depois da divulgação deste índice, tem abraçado esta causa com mais atenção, desde então, a escola estadual lançou o ensino médio no município, e diminuiu assim, um pouco da dificuldade ao acesso a educação;

    Saúde: Em pleno século XXI a qualidade de saúde que temos é chocante. A população de Manari vive a mercê de outros municípios, para atender a situações médicas mais simples pensadas, pois não há equipamentos básicos necessários, uma boa equipe médica e nem estrutura física apropriada;

    Infra-estrutura: Não há saneamento básico, os esgotos simplesmente correm a céu aberto, o abatedouro e o açougue público não tem medida alguma de higienização (e a vigilância sanitária municipal o que faz a respeito disso?… Enquanto isso a população de Manari sofre as causas, inclusive com o mau cheiro dos dejetos deixados do abatedouro “cartão postal” da chegada a Manari – sentido oeste). Incrível é que as “ruas esburacadas” e algumas na própria “terra”, sedia palco para shows caros, pagos com recursos que deveriam ser aplicados de melhor forma.

    Segurança Pública: A segurança de Manari, quem faz hoje é Deus. O poder público do município não tem competência suficiente para proporcionar a segurança de seus habitantes. (Manari tem 16.5 mil habitantes e a quantidade total de policiais é igual a quatro – Sendo dois militares e dois civis, ou seja, são 4.125 hab/cada policial);

    Esporte: Não há incentivo algum à prática de esporte. Os adultos que querem praticar arrecadam dinheiro deles mesmos, para comprar algum material (bola, rede, uniforme etc). E as crianças que necessitam mais ainda, ou pedem ajuda aos pais ou a única opção que resta é a bola feita de pano;

    Lazer: A população manariense não tem opção alguma de lazer em seu município, os adultos e principalmente as crianças necessitam de parques, cinema, teatro e outras atividades que possam dinamizar o seu dia-a-dia;

    Cultura: A cultura é mantida por as pessoas, que, de geração em geração vem-se passando e se deteriorando. Não há centro cultural, incentivo ao teatro e cinema e nem há aplicação de recursos para que a cultura ainda existente se mantenha;

    Geração de renda: Temos a segunda menor renda per cápta do país. Quem trabalha nos cargos considerados “melhores” da prefeitura, (secretarias, tesouraria etc) tem um salário considerável, no entanto quem ocupa outros cargos (exemplo os professores) o salário mal dá para se sustentar e o que dizer dos varredores (as) de rua, merendeiras, zeladoras… À alguns o pagamento não passa de um terço de um salário constituído.

    DA GESTÃO MUNICIPAL

    Há algumas obras recentemente desenvolvidas no município. Em parceria com o governo estadual conseguimos a execução dos velhos projetos da construção do asfalto e da chegada de água canalizada a Manari, porém sua população ainda sofre muito com a falta constante de água. Há muito à ser desenvolvido!
    É incrível, mas dificilmente pode-se encontrar o gestor municipal presente em Manari, geralmente quando conseguimos o encontrar, temos que nos deslocar para o município vizinho, sendo necessário antes, fazer uma grande articulação com seus duros representantes.

    DAS SECRETARIAS

    As secretarias pouco agem pelo desenvolvimento do IDH do município, as mais presentes são:
    · Secretaria de Educação: que apesar de suas limitações, vem desenvolvendo algumas ações mínimas no município. Pode e deve agir muito mais, Apoiar os alunos nas articulações por melhores qualidades de ensino e transporte escolar, merenda, estrutura física da escola, entre outros. Apoiar e desenvolver programas sociais (como o Selo UNICEF e a Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável – PEADS, que na teoria vem sendo aplicados, mas na prática deixa a desejar), poderia ser mais um ponta – pé, para o nosso desenvolvimento, ao contrário, está desaparecendo alguns desses programas, como é o caso do Projeto Telemar de Educação – PTE.
    · Secretaria de Ação Social: Tem desenvolvido algumas ações como, Agente Jovem e Projovem, que infelizmente não tem repercutido muito na vida dos poucos jovens atingidos, em maior caso, influenciados pelos R$ 50,00 pagos, na maioria das vezes atrasados e com muita humilhação.

    Secretarias inexistentes ou sem ação, mas que necessitamos:

    · Secretaria de Juventude: Manari tem muitos jovens capacitados para assumir e trabalhar em uma secretária de juventude, no entanto o secretário é uma pessoa sem conhecimento e de uma idade muito avançada para se responsabilizar por tal. OBS: Acredito na capacidade de ação de cada ser, porém faz-se necessário um jovem assumir o órgão responsável por ações, anseios e necessidades juvenis.
    · Secretaria de Cultura: Temos uma cultura rica. Muitas pessoas lutam para mantê-la, mas a falta de recursos e incentivo pode apagar até mesmo a nossa história.
    · Secretaria de Meio Ambiente: Atualmente o mundo vem sofrendo uma catástofre. Em Manari não é diferente, mas temos ainda uma boa área preservada, que merece atenção e cuidados. (É importante lembrar que 90% das plantas da Caatinga são medicinais e com um pouco mais de conhecimento, poderíamos cuidar de nossa saúde com mais naturalidade e sem pesar tanto em nossos bolsos.
    · Secretaria de Agricultura: Produzimos a maior quantidade de feijão orgânico de Pernambuco, mas falta organização para a comercialização desse e de outros produtos também produzidos sem insumos químicos. Para que isso aconteça e se fortaleça, precisamos de apoio, não só de um órgão, mas também de pessoas competentes.

    VISÃO GERAL

    Temos muitas potencialidades em Manari. Crianças com diversos sonhos e esperança de realização, Jovens aptos a batalhar pelo desenvolvimento e crescimento do município, Adultos preparados para o trabalho e Idosos cheios de dedicação e conhecimento sobre sua terra… Terra fértil, com muitas belezas naturais e uma imensa cultura à ser conhecida, lapidada e divulgada. Excelente agricultura, ótimas condições para a produção de Mel, Caprinos, Ovinos, Bovinos, entre outros… “E é por essas e outras potencialidades que peço uma atenção maior do poder público federal quanto a aplicabilidade de recursos e da situação de Manari, porque vejo que necessitamos apenas de OPORTUNIDADES”.
    Tendo em vista esses itens, acredito na possibilidade de crescimento e de desenvolvimento do IDH e conseqüentemente das pessoas que vivem em Manari.

    CONCLUSÃO

    “Por auto, o poder público municipal tem a responsabilidade de modificar a realidade do município, mas sua população é quem deve escolher como este poder público deve agir, no entanto a necessidade e a falta de conhecimento faz com que esta se acomoda com situação”.

    “Para minha total segurança, não autorizo a divulgação de meus dados pessoais”.
    Desde já, agradeço a sua atenção:
    Cordialmente:
    Marciano de Oliveira.


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