E o Associativismo?

Dezembro 8, 2008

Lagoa Grande, Maranhão.

Lagoa Grande, Maranhão.

Um dia vem uma pessoa com um pouco mais de iniciativa politica e diz: pessoal se voces se juntarem, a gente acaba com esses atravessadores, a gente aumenta o preço do nosso produto, e viramos donos do nosso próprio negocio. Vamos formar uma associação! Vamos ter acesso a crédito, ajuda de orgãos federais, vai ser a nossa solução. Em teoria tudo parece perfeito, um montão de gente se inscreve. Juntos os trabalhadores podem compartir o preço de um trator para arar a terra deles, juntos podem comprar um barco para levarem até o mangue, juntos podem comprar uma maquina de gelo para conservar o peixe. Dessa forma o objetivo é de aumentar a produção ou beneficiar o produto ali mesmo na comunidade. Quem sabe assim o produtor pode colocar o real valor do custo para produzir ou extrair a mercadoria vendida, e combater a exploração exercida pelo comprador que dita o preço pela falta de competição. Se a gente não vender nosso carangueijo para esse comprador ele vai estragar, melhor vender por qualquer preço que perder toda a mercadoria. E a conversa dos atravessadores é sempre a mesma: lá onde vendemos o carangueijo o mercado tá dificil, só querem os grandes, esses pequenos tem que ser mais barato. O trabalhador sem poder de barganha e informação do que esta realmente acontecendo na capital, aceita o preço explorador. O preço que não compensa.
A associção é formada como mecanismo de transformar esse sistema injusto. O crédito logo chega, mas logo também chegam os problemas: recursos desviados e que não são distribuidos , falta de assistencia tecnica e acompanhamento, ferramentas e produtos danificados, brigas, disputas, e o que parecia ser esperança vira um encargo: “Além de pobres, viramos endividados. Antes eu durmia sussegado, não tinha dinheiro mas também não divia nada a ninguém, agora eu tenho o nome sujo e não posso pegar mais nenhum crédito”.
Essa é a historia de vários pequenos produtores brasileiros: são catadores de carangueijo, pescadores, produtores de mandioca, criadores de galinha e gado, que aceitaram o risco para melhorar de vida. Entre esses existem os que são vitimas do sistema, mas também aqueles que se aproveitam da oportunidade de ganhar dinheiro facil. Por causa desses poucos, os politicos jogam a culpa do mal funcionamento dessas iniciativas em cima deles: é a população que não está organizada e não se interessa. E o discurso continua: esses pequenos produtores não estão preparados para o que conseguimos para eles, é a cultura que é dificil de mudar… (ouvimos essa frase durante nossa viagem). Para aqueles que um dia acreditaram no associativismo, depois do fracasso vem a desilusão. Para o pequeno produtor, o trabalho em grupo já não é uma alternativa viável, e a politica se confirma como uma maquina de exploração e corrupção.
Hoje existem varias linhas de projetos que trabalham com coletividades, formação de cooperativas e mobilização comunitária, apoiadas pela direita, esquerda, politicos e organizações da sociedade civil. A maquina do associativismo opera hoje na politica brasileira, para uns como forma de esperança e transformação, para outros como perpetuação da corrupção sobre o rotulo da ação social.
Para uns, a justificativa do mal funcionamento é a cultura da pobreza. Para outros é a corrupção dos que dominam. Nesse impasse, reina estagnação e desilusão. Mas a esperança vem das iniciativas populares, que pode servir como aprendizado para mudanças ao longo prazo. Uma nova geração vai ter que aprender a superar tais dificuldades e buscar alternativas que partam dos ideais iniciais do associativismo, mas que operem de maneira justa e não oportunista.
(essa reflexão foi feita antes de Lagoa Grande, onde vimos varias associações e beneficios chegando com empréstimos de grupo vindo do Banco do Nordeste, acesso a terra através da reforma agrária e construção de casas) .

Lagoa Grande, Maranhão.

Lagoa Grande, Maranhão.

E o clientelismo…

Novembro 23, 2008

(Alexandre)

Estamos a caminho de Guaribas, em uma viagem de 12 horas de onibus de Salvador a Barreiras. Mas antes de vir, fomos jantar na casa do meu pai, onde tivemos uma breve momento familiar. Otimo para eu recarregar as baterias, mas coitado do Gustavo,fez com que ele tivesse ainda mais saudade de casa. Imprimimos ali uma reportagem das Rolling Stones sobre Guaribas, que acabamos de ler aqui no onibus. Estava claro que a principal intenção do jornalista foi mostrar o Lula como um traidor, já que ele prometeu ir lá e não foi, já que ele prometeu melhoras e os seus programas sociais não combatem o clientelismo e assistencialismo. A reportagem usa de um depoimento de um residente, e indicadores para pincelar uma realidade sofrida, necessitada e incapacitada de qualquer esperança de transformação. Foi um otimo exemplo do que não queremos fazer.
Mas daí surgiu um pensamento sobre o clientelismo: é verdade que quando falamos com as comunidades que estamos visitando muitos falam que só o governo pode ajudar, que eles só tem que esperar. Uma análise superficial iria logo chegar a conclusão que essas pessoas estão penduradas na máquina do governo. Quando perguntamos o que eles fazem ou podem fazer para mudar, muitos dizem que não sabem ou não podem por viverem em extrema pobreza. Mas depois de uma reflexão vemos que a história não é bem assim: eles pagam para trazer o carro pipa ao seus povoados, eles se juntam para roçar, dinheiro é arrecadado para festejos que acontecem anualmente. A população mais pobre desse país não está parada de braços cruzados esperando melhoras que cheguem do governo ou do céu. Mesmo aqueles que recebem o bolsa familia (que não são todos) fazem acontecer. Só que o que aparenta é que eles não vêem isto como uma potencialidade, mas como uma maneira de se virar. Por isso que uma pesquisa ou reportagem superficial em busca apenas da pobreza vai perpetuar o assistencialimso ja que o pobre é mostrado como passivo, o marginalizado ou como um perdido.
Só que o que estamos aprendendo é que essa população que vive o clientelismo, tem a noção que ele esta operando, e mais que tudo, se ela se utiliza dele, é para conseguir beneficios. O pobre não é só vitima, ele nessa situação tem poder de barganha. Uma entrevista com a professora do Sitio das Baixas deixou isso bem claro. Como o sitio onde ela vive faz parte de dois municipios, a professora acha que isso não é apenas um problema, mas também uma solução, já que em época de eleições eles podem conseguir ajuda dos dois lados.
Esse pensamento aqui nesse onibus a caminho de Barreiras não pretende perceber o clientelismo de nenhuma maneira que não seja negativa no processo de desenvolvimento dessas localidades. Mas não podemos cair no simplismo de achar que o pobre se entrega as condições aversas. Ele é lutador e trabalhor, ele aparenta 10 anos mais velho que a sua real idade pelo esforço da vida, são “seres de luz”, luz de mudança e transformação, e o que precisam é uma ajuda nesse processo que eles já começaram.

Menino busca água em Cercadinho, Manari, Pernambuco.

Menino busca água em Cercadinho, Manari, Pernambuco.

Dona Lindu vai para casa... Sitio Baixas, Manari, Pernambuco.

Dona Lindu vai para casa... Sítio Baixas, Manari, Pernambuco.